
Caiu no chão. A pequena peça prateada, antes pendurada a pendular, pendeu e pôs-se no chão. Rolou, descansando no fundo do bueiro. Valquíria, 21 anos, um travesti “muito bem montado, sim sinhô”, entrou em desespero. Afinal de contas, encontrar um brinco tão lindo naquela altura do centro da cidade, já tão longe da estação República do Metrô, era quase impossível. Nessa horas, a vaidade não falta a nenhuma mulher – nem às quase-mulheres.
- Ou você engole a Selva de Pedra, ou a cidade engole você!
Valquíria, flor que não se cheira, certamente engolia a cidade. Desse modo, não poderia deixar desfalcado seu conjunto de corrente e brincos assim, facilmente.
***
Distraído, Cabo Ferreira passava pela Rua Vitória fazendo vista grossa aos trabalhadores noturnos. A bordo de sua patrulha motorizada, virou à esquerda na Rua Do Triunfo. Gostava da combinação, Vitória e Triunfo. Apesar da calmaria, não pôde deixar de notar uma – à primeira vista – mulher, enfiando o braço até a altura do ombro dentro de uma boca-de-lobo, em posição nada confortável. Mesmo filho de nordestino cabra-macho, Cabo Ferreira acostumou-se sem esforço algum à vida pouco ortodoxa das madrugadas de São Paulo. Raros eram os finais de semana que não terminavam em dor de cabeça dominical. Assim, pouco por ofício e muito por safadeza – afinal de contas já havia requerido os serviços de mulatas algumas vezes –, Ferreira encostou sua moto ao lado de Valquíria.
- A mocinha perdeu alguma coisa? Tô aqui pra manter a ordem, se é que você me entende.
A risada do policial, alta e espalhafatosa, acalmou o travesti, aparentemente pouco habituado aos maus-tratos da vida na rua.
- Pois é, “seu polícia”, minha argola caiu no buraco.
- Pra mim tuas cadeiras tão no lugar, rapariga. Que história é essa de argola no bueiro?
A hostilidade fez Valquíria pensar em desistir de reaver seu tesouro. Suando frio e quase gaguejando, tentou explicar melhor:
- Meu brinco, meu brinco. Foi meu brinco de argola que caiu no bueiro.
- Ah, tá. Num explica direito, pô!
Num ato que beirou a espontaneidade, Cabo Ferreira ficou de cócoras, inclinou-se para frente, e realizou o ato que há quase trinta minutos estava sendo repetido pelo travesti: enfiar o braço dentro da boca-de-lobo e tentar alcançar a argola prateada. Treze centímetros mais baixo que Valquíria – sem contar o salto agulha, de quinze centímetros –, o policial realizou essa tentativa mais por instinto que por razão, uma olhada mais criteriosa teria sido suficiente para perceber que seria inútil.
- Num tá dando certo! O que a gente faz?