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ESCAFANDRO.ORG | ARTE & CULTURA

Postado em 28/8/2008 17:28 por Alexandre Aragão

Flores e ditados



    Caiu no chão. A pequena peça prateada, antes pendurada a pendular, pendeu e pôs-se no chão. Rolou, descansando no fundo do bueiro. Valquíria, 21 anos, um travesti “muito bem montado, sim sinhô”, entrou em desespero. Afinal de contas, encontrar um brinco tão lindo naquela altura do centro da cidade, já tão longe da estação República do Metrô, era quase impossível. Nessa horas, a vaidade não falta a nenhuma mulher – nem às quase-mulheres.
    - Ou você engole a Selva de Pedra, ou a cidade engole você!
    Valquíria, flor que não se cheira, certamente engolia a cidade. Desse modo, não poderia deixar desfalcado seu conjunto de corrente e brincos assim, facilmente.

***

    Distraído, Cabo Ferreira passava pela Rua Vitória fazendo vista grossa aos trabalhadores noturnos. A bordo de sua patrulha motorizada, virou à esquerda na Rua Do Triunfo. Gostava da combinação, Vitória e Triunfo. Apesar da calmaria, não pôde deixar de notar uma – à primeira vista – mulher, enfiando o braço até a altura do ombro dentro de uma boca-de-lobo, em posição nada confortável. Mesmo filho de nordestino cabra-macho, Cabo Ferreira acostumou-se sem esforço algum à vida pouco ortodoxa das madrugadas de São Paulo. Raros eram os finais de semana que não terminavam em dor de cabeça dominical. Assim, pouco por ofício e muito por safadeza – afinal de contas já havia requerido os serviços de mulatas algumas vezes –, Ferreira encostou sua moto ao lado de Valquíria.
    - A mocinha perdeu alguma coisa? Tô aqui pra manter a ordem, se é que você me entende.
    A risada do policial, alta e espalhafatosa, acalmou o travesti, aparentemente pouco habituado aos maus-tratos da vida na rua.
    - Pois é, “seu polícia”, minha argola caiu no buraco.
    - Pra mim tuas cadeiras tão no lugar, rapariga. Que história é essa de argola no bueiro?
    A hostilidade fez Valquíria pensar em desistir de reaver seu tesouro. Suando frio e quase gaguejando, tentou explicar melhor:
    - Meu brinco, meu brinco. Foi meu brinco de argola que caiu no bueiro.
    - Ah, tá. Num explica direito, pô!
    Num ato que beirou a espontaneidade, Cabo Ferreira ficou de cócoras, inclinou-se para frente, e realizou o ato que há quase trinta minutos estava sendo repetido pelo travesti: enfiar o braço dentro da boca-de-lobo e tentar alcançar a argola prateada. Treze centímetros mais baixo que Valquíria – sem contar o salto agulha, de quinze centímetros –, o policial realizou essa tentativa mais por instinto que por razão, uma olhada mais criteriosa teria sido suficiente para perceber que seria inútil.
    - Num tá dando certo! O que a gente faz?

- Quer parar de falar e me ajuda a levantar, traveco sujo?
    As palavras bateram como pedras nos ouvidos de Valquíria, que engoliu seco e não revidou a provocação. Passados alguns minutos – e a custo de boa parte paciência de Ferreira –, os dois chegaram a um método capaz de reaver a argola: a corrente de prata que fazia conjunto com a argola seria descida pelo policial, com um clipe preso à uma das pontas. “Mais ou menos que nem na pesca de São João”, ilustrou o travesti.
    Novamente Cabo Ferreira pôs-se de cócoras, inclinou-se afrente e enfiou o braço no bueiro. Nem precisava. Com uma paulada seca e certeira, a cabeça de Ferreira foi projetada e chocou-se contra a guia, vingança instantânea. “Ninguém tem sangue de barata”, pensou Valquíria, um travesti “muito bem montado, sim sinhô”, que há 50 minutos tentava recuperar um de seus maiores tesouros de dentro de um bueiro.
    O 5º Distrito Policial, na Liberdade, foi onde Valdomiro dos Santos Dias, 27 anos, passou boa parte dos próximos meses. Recebido com honrarias em sua nova hospedagem – afinal de contas, “121 em polícia não é pra qualquer um!” –, Valdomiro, para alegria de seus colegas de cela, continuou exercendo sua profissão com louvor na cadeia.

 



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