Home - blog tv

ESCAFANDRO.ORG | ARTE & CULTURA

Postado em 15/8/2008 2:39 por Alexandre Aragão

Em entrevista exclusiva, Mutarelli fala sobre seus projetos recentes e futuros

- Nanquim! Você queimou o bigode ou só está ficando velho? - Lourenço Mutarelli, se dirigindo ao seu gato preto, momentos depois de me receber em sua casa, em São Paulo.

De maneira franca, Mutarelli conversou com o repórter que vos fala sobre diversos assuntos: mudança de editora, literatura, cinema... Enfim, passado, presente e futuro.



BlogTV: Você enxerga influência sua nos trabalhos de algum artista ou escritor atual, como nos Malvados?

Lourenço Mutarelli: Poxa, eu não reparo. Nunca reparei. Até tem um amigo meu que diz ser estranho não imitarem muito o meu trabalho. Talvez porque seja um traço muito particular. Não tenho acompanhado muito o que tá saindo. Eu vejo que em texto há uma tentativa – principalmente graças ao jeito que eu escrevi “O Cheiro [do ralo]”, com frases curtas, meio jogadas. Eu já vi alguma coisa assim, nem sei de quem, que porventura tenha uma influência.

BTV: Quando começou sua relação com outro tipos de arte, como teatro e cinema?

LM: Acho que começou com os desenhos pro filme “Nina”. Foi a primeira vez que eu usei meu trabalho para algo que não era nem quadrinho nem ilustração. Eu até cheguei a atuar no filme, não tinha fala nem nada, mas a cena em que aparecia foi cortada na edição final. Atuação mesmo foi com “O Cheiro do ralo”, porque quando eu vendi os direitos pro Heitor [Dhalia, diretor do filme] ele me chamou para fazer um papel. Várias vezes o Selton [Mello] não podia ir aos ensaios e eu acabava lendo os textos no lugar dele. Isso me rendeu vários tapas – até na cara –, porque a gente provocava as atrizes e atores que estavam em teste, a ponto de algumas me baterem. Claro, quando era o Selton que apanhava eu achava engraçado. Só fiquei preocupado uma vez, quando um dos atores testados começou a tremer de raiva, achei que ele fosse querer brigar.

BTV: O filme “O dobro de cinco”, baseado no livro homônimo, está em que fase de produção?

LM: Talvez esse filme nem aconteça. A gente tem um teaser feito – um trailer de uma coisa que não existe, só para tentar vender, porque é um projeto muito caro. Eu acho que tá em negociação com a HBO, mas não tem nada certo. Talvez seja mais provável que ele vire uma série. Talvez ele fique um tempo em gaveta – se acontecer, talvez nem aconteça.

BTV: Uma série no estilo “Mandrake”?

LM: É, exatamente, nessa linha. Já “O Natimorto” deve ir para a telona ano que vem, não vejo a hora.

BTV: E a releitura de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, que você fez em comemoração ao centenário da morte de Machado de Assis, como foi essa experiência? Como é sua relação com a literatura tradicional?

LM: Machado eu sempre gostei muito. Eu lia, gostava e me identificava. Engraçado é que o convite foi feito há dois anos e pouco atrás. Eu até brinquei na época que a minha expectativa de vida não ia tão longe (risos). Fiquei esse tempo todo meio que tomando coragem para fazer, porque esse projeto era bem difícil – tanto pelo respeito quanto pela importância do Machado. Um ou dois meses antes do prazo final eu sentei e fiz. Tentei me desprender, e fiz. Ainda não tive nenhum retorno disso, se as pessoas gostaram ou não, acho que você é a primeira pessoa que me pergunta sobre esse texto.

BTV: Você chegou a ler algum dos outros textos do livro?

LM: Não, eu recebi o livro mas ainda não li nada, nem o meu.

BTV: Com o projeto “Amores expressos” você fez um blog. Como foi sua relação com a blogosfera durante esse curto espaço de tempo?

LM: Eu adorei, pra mim foi muito importante. Era uma das obrigações, algo que fazia parte do projeto, mas a princípio eu não queria fazer. Até porque eu não sei fazer blog. Mas quando eu comecei, e tive retorno, foi muito importante para mim, muito mesmo. Achei engraçado como as pessoas falaram: “Que original, um blog com começo, meio e fim”. Por não conhecer o espaço, acho que acabou ficando alguma coisa diferente. Era uma companhia, foi ficando cada vez mais legal encontrar aquelas pessoas.

BTV: Foi a primeira vez na sua carreira que você teve um contato mais próximo com o público?

LM: A minha primeira experiência de ter um resultado imediato do que eu faço foi no teatro, porque como as pessoas não me conhecem, eu fui assistir à minha primeira peça algumas vezes e senti o resultado imediato do trabalho, o que funciona e o que não funciona. Mas não havia um diálogo. No blog havia um mínimo diálogo. Por mais que eu não quisesse me comunicar, dissesse que não ia responder, às vezes eu acabava respondendo.

BTV: Por que não responder? Você é “anti-internet”?

LM: Quando começou essa coisa de internet, me chamaram para um chat-entrevista, era uma mídia muito nova. Entraram muitas pessoas zoando, que nem conheciam nada. Eu achei algo onde você se expunha demais para pessoas totalmente anônimas e covardes. No fim deu tudo certo, mas eu não gostei dessa relação. Meu trauma com internet talvez seja um pouco por causa dessa experiência. No blog eu achei que muita gente ia entrar nesse espírito, de encher o saco. Mas não, aquilo se tornou um tipo de amizade.

BTV: Foi seu único trauma online?

LM: Teve também uma vez, quando eu ainda era da Devir, que a editora abriu um canal de comunicação pela internet, do público comigo. Eu lembro que a primeira pergunta que recebi era se eu sou nazista. Tudo isso graças a um desenho em uma de minhas obras com um busto de Hitler – numa página onde tinham quinhentas cabeças desenhadas, entre elas estava a do ditador. Na época eu tinha umas 600 páginas de quadrinho feitas, e em apenas uma página isso apareceu. A primeira pergunta que eu recebo é essa? É esse tipo de pessoa que freqüenta esse lugares, a fim de criar situações constrangedoras? Eu até parei, respondi mais umas duas ou três e parei. Não vou perder meu tempo com anônimos covardes. Parece trote!

BTV: Qual foi o motivo da saída da Devir para a Cia. das Letras?

LM: Eu tive que fazer uma escolha. Não estava muito contente com a minha relação com a Devir. Fui convidado pela Cia., gostei da editora e fiz uma escolha.

BTV: Além de “A arte de provocar efeito sem causa”, seu último livro, existe a possibilidade de mais algum livro seu sair pela Cia. das Letras?

LM: Nós queremos lançar títulos que já haviam sido lançados pela Devir, como “O Cheiro do ralo”. Mas isso ainda está sendo negociado.



BTV: Você tem contato com algum outro escritor que participou do “Amores Expressos”?

LM: Em julho, em San Diego, encontrei o [Daniel] Pelizzari, que tinha ido pra Irlanda pelo projeto. Antes também tinha me encontrado com o [Daniel] Galera, que já entregou o texto. A gente teve um encontro com todos os autores, uma vez, não lembro quando. Não são pessoas muito próximas. Eu e o Pelizzari temos uma identidade grande em algumas coisas, características parecidas. A gente não conversou muito sobre o projeto; não lembro de ter conversado sobre o projeto com mais alguém.

BTV: Nesse projeto, além de fazer o blog, você teve que viajar para outra cidade, que foi Nova Iorque. O que você achou de lá?

LM: Eu voltei pra lá agora, fiquei mais duas semanas, no final de julho. A cidade é interessante, hoje gosto mais dela – depois que voltei e vi as fotos, gosto mais dela. Dessa vez eu fiquei em Manhattan, num lugar bem localizado, sem ter que voltar pra Red Hook – bairro meio de periferia, que eu fiquei da primeira vez que fui. É uma cidade que deve ser visitada de vez em quando, porém ela se esgota muito rápido. Uma semana é suficiente, ainda mais se você já conhece a cidade. Dá para visitar todas as áreas de interesse em menos tempo que isso. Pelo menos pra mim.

BTV: Você acha que São Paulo tem esse problema, é uma cidade que se esgota rápido?

LM: Eu acho que não. Em São Paulo existem diferenças mais acentuadas, principalmente culturalmente. Em Nova Iorque, apesar de ter os guetos – Little Italy, bairro hispânico – não existe, tirando China Town, uma diferença cultural muito grande. Em São Paulo, por exemplo, você vê influências de outras regiões do Brasil, além da influência de fora do país. Em Nova Iorque eu nunca vi um bairro que parecesse, sei lá, texano (risos).

BTV: O fruto do projeto já tem título e data de lançamento?

LM: Não, ainda bem que não. Não tem título – e eu fico rescrevendo. O argumento está pronto, mas nenhum dos narradores que eu escolho para contar a história me convenceu ainda. É uma encomenda, um desafio muito grande. Eu gosto de encomendas, gosto que me dêem um tema para desenvolver, mas nesse caso é um tema muito complexo. Uma hora eu acabo, uma hora sai – e vai ter um nome.

BTV: Mesmo porque os títulos de suas obras costumam ser originais...

LM: Geralmente, quando eu começo a escrever, meus títulos são o nome que eu crio para o documento no computador. Alguns acabam sendo o título até o fim – títulos provisórios que eu acabo gostando. Esse daí não tem nem título provisório.

BTV: Tá “Documento1.doc” ainda?

LM: Não, tá “Nova Pasta”, “Pasta Nova, “Posta Nova”, estou só mudando as palavras. Uma hora eu escrevi “Outono no Brooklyn”, mas só porque era outono e eu estava no Brooklyn. Acho um título medonho, não quero como título. Talvez porque eu não tenha encontrado ainda quem conta essa história. Agora eu acho que estou mais próximo de chegar dessa voz. Nunca passei uma dificuldade como estou passando nesse caso.

BTV: Dificuldade criativa?

LM: Talvez seja criativa. Eu até brinquei esses dias com um amigo que agora eu estava me sentindo um escritor, porque tive um bloqueio (risos). Eu quis escrever o livro antes da viagem, mas acabei matando o final. Quando a Lu, minha esposa, leu, disse: “você matou o final do livro, matou aqui, aqui e aqui”. Não liguei muito. Aí eu mandei pra Cia. das Letras e quando eu voltei eles falaram: “aqui, aqui e aqui”, nos mesmo lugares que a Lu mostrou. Aí eu disse “tudo bem, vou trabalhar de novo”. Foi um livro que eu demorei mais tempo, quis escrever em terceira pessoa... Eu queria fazer um livro mais cinza, não queria entrar numa fórmula minha e escrever igual “O Cheiro do ralo” ou “O Natimorto”, que é muito fácil pra mim. Eu queria um desafio, e isso dá um pouco mais de trabalho.

BTV: Como é sua relação com o desenho atualmente? Eles ajudam nesse processo criativo?

LM: Hoje em dia não desenho mais profissionalmente; claro, isso pode mudar algum dia. Eu tenho uns cadernos em que escrevo frases e desenhos desconexos. O “Desgraçados”, por exemplo, surgiu de uma frase que havia sido escrita dez anos antes num desses cadernos. Eu costumo terminar eles e depois pôr na gaveta, pra ler e ver depois.



BTV: Meu tempo acabou.

LM: Ah, eu falo pra caralho!

 



Adicionar Comentário

Participe! Seus comentários poderão ser importantes para outros participantes interessados no mesmo tema. Todos os comentários serão bem-vindos, mas reservamo-nos o direito de excluir eventuais mensagens com linguagem inadequada ou ofensiva, bem como conteúdo meramente comercial.

Gostaria que estas informações sejam lembradas para o próximo comentário?

Digite os caracteres (em maiúsculas e minúsculas) que aparecem na imagem acima.

Home